'Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem
não tem dinheiro', diz Drauzio Varella
Ricardo
Senra - @ricksenraDa BBC Brasil em São Paulo
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Há 3 horas
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Médico mais popular do Brasil, conhecido por quadros na televisão,
vídeos em redes sociais e best-sellers como Estação
Carandiru, Drauzio Varella é categórico quando
o assunto é a interrupção de gestações. "O aborto já é livre no Brasil. É
só ter dinheiro para fazer em condições até razoáveis. Todo o resto é
falsidade. Todo o resto é hipocrisia."
Em
entrevista por telefone, Varella critica qualquer enfoque religioso sobre o
tema - que voltou ao noticiário junto à epidemia de zika vírus e aos recordes
em notificações de microcefalia - e afirma que o cerne da discussão não está na
moralidade, mas na desigualdade brasileira.
"Ninguém
pode se considerar dono da palavra de Deus, intermediário entre deuses e seres
humanos, para dizer o que todos devem fazer", diz. "Muitos religiosos
pregam que o aborto não é certo. Se não está de acordo, não faça, mas não
imponha sua vontade aos outros."
Como a
BBC Brasil revelou na última quinta-feira, uma ação que pede a
descriminalização do aborto em casos comprovados desta má-formação deve chegar
ao Supremo Tribunal Federal, nos próximos dois meses. Segundo a OMS
(Organização Mundial da Saúde), uma brasileira morre a cada dois dias por conta
de procedimentos mal feitos e um milhão de abortos clandestinos seriam feitos
no país todos os anos.
"A
mulher rica faz normalmente e nunca acontece nada. Já viu alguma ser presa por
isso? Agora, a mulher pobre, a mulher da favela, essa engrossa estatísticas.
Essa morre."
"Proibir
o aborto é punir quem não tem dinheiro", prossegue Varella, que não
acredita que uma eventual descriminalização possa estimular que mulheres
busquem o procedimento.
"Não
sou defensor do aborto e ninguém é. Qual é a mulher que quer fazer o aborto? É
uma experiência absurdamente traumatizante, uma tragédia. A questão não é
essa."
Também
segundo a OMS, cerca de 25 países já registram casos de zika. Apenas Brasil e
Polinésia Francesa, entretanto, têm dados comprovando o aumento de casos de
microcefalia em recém-nascidos.
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neste caso específico. "Na microcefalia,
o diagnóstico definitivo é feito em geral próximo ao 3º trimestre. Você pega um
feto aos sete meses e ele está quase nascendo", diz. "Mas é lógico
que eu respeito (qualquer decisão)."
"O
importante é dar liberdade aos que pensam diferente", afirma o médico.
"Essa é a questão fundamental do aborto."
Varella
então levanta a pergunta: se a doação de órgãos em caso de inatividade cerebral
tem aceitação popular, por que a retirada de um feto igualmente sem atividade
cerebral é criticada?
Ele dá
o exemplo de uma menina que sofre um acidente de moto e tem morte cerebral.
"Ela pode, por lei, ter fígado, coração e rins retirados para doação,
porque seu sistema nervoso central não está mais funcionando. O sistema nervoso
central é o que determina a vida. Mas até o 3º trimestre de gravidez, não há
nenhuma possibilidade de arranjo do sistema nervoso que se possa qualificar
como atividade cerebral em qualquer nível, a não ser neurônios tentando se
conectar."
Drauzio
continua: "Muitos consideram que a vida humana começa no instante da
fecundação. Mas, por esse raciocínio, a então vida começa antes, porque o
espermatozoide é vivo e o óvulo também."
Religiosos e políticos
O
médico faz críticas duras a quem argumenta contra o aborto a partir de
princípios religiosos.
"O
poder das igrejas católicas e evangélicas é absurdo", diz. "Mas não
está certo a maioria impor sua vontade. Respeitar opiniões das minorias é parte
da democracia. Tem que respeitar os outros, o modo dos outros de ver a
vida."
À
reportagem, Varella diz que discorda dos que culpam exclusivamente o governo
pela epidemia.
"O
estado brasileiro falha em muitos níveis. Mas não dá pra colocar a culpa toda
no Estado, essa é uma visão muito passiva. Larga-se o pneu com água armazenada,
deixa-se a água acumular na calha... Esta culpa é compartilhada, a sociedade
tem uma fração importante nessa luta."

